Artigo publicado por AlmeidaCar no dia 02/07/2012

BMW 335i

Não tenho por hábito citar colegas de profissão, mas há uma frase de um jornalista inglês que não me “largou” durante todo o ensaio deste 335i F30: “o 335i é o melhor carro do mundo… real”. Confesso que a primeira vez que li a afirmação (ainda aplicada ao anterior Série 3) pareceu-me um bocadinho exagerada. Como é que é possível ser tão perentório em relação a um carro que, convém não esquecer, custava, já na altura, mais de 60 mil euros, consumia (bastante) gasolina e tinha uns convincentes, mas não impressionantes, 306 cv de potência? Mesmo retirando da equação o importante facto de que esta análise se aplicava ao mercado britânico, parecia ser uma afirmação um tanto ou quanto forçada. Será? A verdade é que ao longo dos cinco dias em que tive o novo 335i como companheiro de viagens, criei uma empatia, uma cumplicidade, que só muito raramente se alcança.

Motor do novo BMW 335i Auto

É fácil sentirmo-nos enfeitiçados pelo cantar do seis cilindros, pela eficácia da fabulosa caixa automática de oito velocidades ou pela excecional relação conforto/comportamento, mas o 335i resulta melhor do que a soma das partes. É a coesão dos diferentes elementos, a forma como tudo parece trabalhar harmoniosamente em prol de um fim comum, que realmente impressiona. E esta feliz convivência começa logo no seis cilindros turbo de injeção direta. Poucos motores a gasolina se podem gabar de oferecer uma tão ampla faixa de utilização, com o 3.0 a subir de regime com vigor desde as 1200 rpm (!) até ao corte, às 7200 rpm. Como referi, a experiência sonora também contribui para a felicidade deste casamento, ainda que, face ao anterior 335i, o seis cilindros pareça bem mais discreto. Pessoalmente, nunca me canso de ouvir o bonito cantar do seis em linha, mas compreendo que, para um alemão que faz constantemente 400 ou 500 km de “autobahn” seguidos, a apurada insonorização seja motivo de regozijo…

Caixa automática do novo BMW 335i Auto

Seja em que mercado for, a caixa automática de 8 velocidades é um elemento imprescindível. A sua importância é tal que a BMW anuncia melhores prestações, consumos e emissões no BMW 335i Auto do que no seu congénere com caixa manual de seis velocidades. Se acha que os 2336 euros pedidos pecam pelo exagero, pense duas vezes. Nenhum outro opcional valerá mais o investimento do que a caixa desenvolvida pela ZF. Além de ser dos poucos que, ao longo do tempo, amortizará o custo de aquisição. É que, até pelos dados da própria BMW, não acredito que o BMW 335i manual consiga consumos médios na casa dos 8,8 l/100 Km. Ou que, em estrada aberta, seja perfeitamente possível rolar a velocidades legais com consumos que podem variar entre os 5,6 e os 6,6 l/100 Km.

Os segredos do novo BMW 335i Auto

Se o segredo reside, em boa parte, na caixa automática, esta não está sozinha na busca incessante por consumos mais baixos, já que o 335i dispõe de sistema start/stop e do programa Efficient Dynamics, que, como sabemos, tira partido de um conjunto de medidas que visam diminuir os consumos e as emissões. Entre estas está a regeneração da energia cinética das travagens, que é “canalizada” para a bateria. Todo o processo (bem como o resultado final) pode ser acompanhado no écran policromático colocado no topo do tablier do BMW 335i Auto.

Modo ECO pro do novo BMW 335i Auto

De realçar que o modo Eco pro, bem como os restantes Comfort, Sport e Sport+, podem ser selecionados num comando na consola central do BMW 335i Auto. A ideia é permitir ao condutor modificar a resposta da suspensão (quando esta é pilotada), da direção, da caixa e do motor, de modo a adaptá-la ao seu estilo de condução ou às necessidades do momento. No caso do modo Sport, a personalização vai ainda mais longe, permitindo configurar se queremos que este modo se repercuta em todos os elementos mecânicos ou apenas no motor e transmissão.

Mais performance com o BMW 335i Auto

O modo Sport+ é um bom exemplo da dupla personalidade que tanto me apaixona no 335i. Tão depressa aconchega a família num passeio domingueiro como “desafia” qualquer bom desportivo numa exigente estrada de montanha. Eu sei porque moro na zona da serra de Sintra e até o percurso matinal para ir ao pão se pode transformar num desafio recheado de adrenalina. Dois toques no botão Driving Experience Control (o tal da consola central) e o BMW passa do pachorrento modo Comfort para o agressivo Sport+. O seis em linha ganha um tom de voz mais grave, a caixa prolonga as relações até ao “red line” e o sistema de controlo de estabilidade adota uma posição menos interventiva.

Mais opções do novo BMW 335i Auto

De todo o modo, se quiser levar a diversão a outro nível, com o BMW 335i Auto pode sempre desligar completamente o anjo da guarda (DSC). Seja como for, a progressividade de reações é um dado adquirido. Com o DSC completamente desligado e tirando partido da simulação eletrónica de um autoblocante (trava a roda que patina), o 335i entra no mundo dos powerslides ou dos drift controlados. Tirando alguns desportivos assumidos ou exemplares nascidos sob a égide da divisão desportiva da BMW (a célebre M) são poucos os “familiares” com tal apetência para transformar qualquer rotunda ou gancho com boa visibilidade numa aula prática de condução de como se divertir ao volante de um (bom) tração traseira. Com a vantagem de, tendo à disposição 400 Nm de binário às 1200 rpm e pneus traseiros 225/45, não ser preciso ir demasiado depressa no BMW 335i Auto… Ainda assim, e tendo em atenção que os Pirelli P7 Cinturato não são propriamente desportivos, o 335i tem uma motricidade impressionante.

Caixa de segredos do novo BMW 335i Auto

Se a caixa já me tinha impressionado no modo Auto, não estava à espera que o fizesse de igual modo nas passagens manuais. Mais uma vez fiquei rendido. Nos modos Sport e Sport+, a ZF de oito responde com uma rapidez e decisão invulgares. As reduções são quase instantâneas e secundadas por um inevitável ponta-tacão “artificial”, enquanto as passagens feitas em plena aceleração são acompanhadas por “estampido” seco que vicia. Que delicia!

Família que viaja no BMW 335i Auto

Voltando ao mundo “real”. O novo Série 3 encarna novamente o familiar para o qual, em abono da verdade, foi criado. O aumento das dimensões exteriores (mais 93 mm em comprimento) reflete-se no espaço interior, mas não da forma expressiva que seria esperado. Já a bagageira viu a capacidade crescer para os 480 litros, um valor que não sendo referencial (longe disso) permite algum desafogo a uma família de quatro elementos. O aumento do número de espaços de arrumação no interior e a possibilidade de (em opção) rebater o banco traseiro numa proporção 40:20:40, também reforça a versatilidade. Outra novidade diz respeito ao número de novos elementos tecnológicos destinados a garantir o conforto e segurança dos ocupantes, ainda que a esmagadora maioria tenha sido desviada para a extensa lista de opcionais que, por tradição, acompanha qualquer BMW. Ainda assim, e tendo em atenção que o 335i custa mais de 60 mil euros, acho que alguns elementos deviam fazer parte do equipamento de série.

Carteira sem fundo para quem quiser o BMW 335i

Voltando à questão inicial de se seria o BMW 335i o melhor carro do mundo real, não tenho dúvidas de que se não é, anda lá perto. Se o anterior Série 3 já era um caso sério de sucesso e um osso duro para a concorrência, esta geração eleva o patamar de excelência. Mas convém deixar bem claro que para ter um Série 3 igualmente impressionante terá, obrigatoriamente, de puxar da carteira e recorrer à lista de opcionais. Ou seja: o Série 3 ideal vai depender do tamanho dos seus bolsos e das suas ambições. Com a certeza de que a base já é de si muito boa, só faltando uns pózinhos para se tornar excecional.

in: Autohoje

BMW 335i